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Onda de extermínio assola o Pará

13 de fevereiro de 2012

Três pessoas são assassinadas, todo dia, na região metropolitana de Belém. No ano passado, houve 2.913 homicídios no Pará, dos quais 1.033 apenas na RMB. A média no Estado é de oito assassinatos por dia. Os movimentos sociais afirmam que há um verdadeiro extermínio de jovens. O governo estadual garante que quase 500 vidas foram preservadas, em todo o Estado, em 2011, se comparado com o ano anterior.

O mototaxista Alex Pereira Raiol, 30 anos, não teve a sorte de estar entre os que foram poupados. Ele economizava para comprar um carro e foi assassinado em janeiro deste ano, na Pedreira. Deixou esposa e duas filhas, de 8 e 10 anos. ‘Entrego nas mãos de Deus, que tarda mas não falha’, resigna-se a viúva, Sônia do Rosário Natividade Ferreira, 39 anos. ‘Quero justiça’, apela a viúva, que foi casada com Alex por 11 anos. A polícia investiga a hipótese de crime passional – Alex teria relação com uma mulher cujo ex-companheiro não aceitava a separação.

Muitas vezes, as famílias de pessoas executadas se mudam por causa do trauma e do medo. Os parentes do estudante Manoel Raimundo Marques de Jesus, 21 anos, assassinado a tiros no último dia 3, no conjunto Campos Elíseos, no Tapanã.

A família acredita que o alvo era o irmão da vítima, envolvido em crimes. Manoel foi morto por engano. Na terça-feira passada, a reportagem voltou ao local do crime. Moradores contaram que a família se mudou após o homicídio, com receio de um novo ataque. Os vizinhos disseram não saber o paradeiro dos parentes de Manoel. O mesmo ocorreu com a mãe e o irmão de um adolescente de 17 anos, assassinado a tiros, em janeiro, no Guamá. Neste caso, segundo apurou a reportagem, ele saiu de casa para fazer um roubo e arrecadar dinheiro para comemorar seus 18 anos, poucos dias depois, mas foi assassinado por dois homens, que imaginaram que ele iria roubar a motocicleta de um traficante – o jovem, no entanto, já havia assaltado uma pessoa e levado o celular.

‘A violência não é democrática, nem homogênea, em que pese a classe média e a elite serem vítimas ocasionais. Ao contrário do que se possa crer, a violência não atinge a todos de forma igual e indistinta’, diz o secretário-geral da Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH), Marcelo Costa. ‘São os mais pobres, das periferias urbanas, jovens, homens e negros que são desigual e desproporcionalmente os mais vitimizados pela violência, onde o emprego de arma de fogo é o mais utilizado’, diz ele, para afirmar a tese de que está havendo um extermínio de adolescentes e jovens na região metropolitana de Belém e, também, no Estado. Marcelo Costa afirma que esses crimes acontecem ‘com a omissão do Estado, visto que outros Estados tomaram iniciativas e têm enfrentado com firmeza esses grupos, infringindo duras derrotas às suas ações criminosas, com diminuição dos índices de violência, a exemplo do Rio de Janeiro e de São Paulo que, ao final da última década, já ostentam a posição de Estados menos violentos do País’, diz ele.

Extermínio

No Rio, diz o advogado, há um combate sem trégua à ação das milícias, que também fazem às vezes de grupos de extermínio. ‘O que é que tem aqui no Estado? Foi criado algum grupo especial, com poderes, recursos? O governador tomou alguma iniciativa em relação ao fato? Em qualquer Estado com o mínimo de decência, caía a cúpula da segurança pública. Afinal de contas, garotos têm sido executados. Entretanto, o que se vê é um comportamento tipicamente fascista em relação à criminalidade violenta’, acrescenta.

Marcelo Costa lembra que esteve em uma reunião com alguns delegados responsáveis por um inquérito que apura execuções de adolescentes. ‘Na reunião, uma delegada disse: ‘nós verificamos que pelo menos aqueles garotos não tinham envolvimento com o crime’. Peraí, quer dizer que se, tivessem, haveria alguma justificativa para o assassinato? No fundo, esse é o raciocínio que orienta a segurança pública em relação a esse fenômeno’, afirma.

O secretário-geral da SDDH acrescenta que, em Belém e na região metropolitana, a violência campeia nos bairros periféricos, entre os quais Benguí e Terra Firme, e Outeiro. Marcelo Costa diz que há informações sobre a ação de grupos de extermínio em Santa Izabel, Guamá e Icoaraci. ‘A continuar nesse ritmo, não será surpresa o controle desses grupos sobre vastos

territórios da região metropolitana, extorquindo dinheiro, empreendendo negócios irregulares e ilegais, propagando a violência e instituindo currais eleitorais’, alerta.

Marcelo Costa também comenta as afirmações da polícia, segundo a qual boa parte dos homicídios ocorre por questões ligadas ao tráfico de drogas. ‘Acertos de contas ou dívidas do tráfico nada explicam. A maior parte sem elucidação, o que assinala a ausência de medidas efetivas de enfrentamento do problema, lançando uma mensagem perigosa: ‘está em curso, no Estado do Pará, um processo de limpeza social’, que, com a omissão das autoridades públicas, atinge consciente e seletivamente os segmentos excluídos e marginalizados da sociedade’, analisa.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública garante que, mês a mês, reduz as estatísticas de homicídios na capital e no interior. Mas Marcelo Costa tem uma análise crítica sobre essa afirmação. ‘O que há, e muito, é sub-registro. Quando comparados aos dados de instituições que de fato fazem pesquisa, como o IPEA e – agora, mais recentemente, o Mapa da Violência de 2012, do Instituto Sangari, essas ‘garantias’ não se sustentam por falta de política. Os governos contabilizam a política de segurança pública em efetivo, armas e prisões, nunca em formação, inteligência, mediação de conflitos, participação cidadã e controle social. A primeira conta dá visibilidade e voto, enquanto a segunda dá eficácia’. (O Liberal)

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