Uma demanda histórica por acesso ao ensino superior no campo começou a ganhar resposta concreta no Bico do Papagaio na segunda-feira (27), com o início da primeira turma de Engenharia Agronômica do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), no Instituto Federal do Tocantins (IFTO), campus de Araguatins. A iniciativa atende públicos tradicionalmente afastados da universidade, como assentados da reforma agrária, quilombolas e pequenos agricultores — uma reivindicação que remonta às mobilizações sociais da década de 1980 na região.
Ao todo, 50 estudantes de diferentes comunidades iniciam a formação com uma proposta pedagógica que combina ensino acadêmico e aplicação prática nos territórios de origem. O modelo, conhecido como Pedagogia da Alternância, prevê períodos de estudo no campus e atividades desenvolvidas diretamente nas comunidades, permitindo que o conhecimento técnico seja adaptado às realidades locais. A proposta também valoriza saberes tradicionais e experiências acumuladas ao longo de gerações, integrando-os ao conteúdo científico.
A implantação do curso foi resultado de um processo de articulação que durou cerca de três anos, envolvendo o IFTO, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e movimentos sociais da região. Segundo a direção do campus, o desafio foi construir uma grade que atendesse às exigências técnicas da formação em agronomia sem perder o caráter contextualizado exigido pelo programa. Para representantes dos movimentos, a iniciativa simboliza não apenas acesso à educação, mas também reconhecimento de trajetórias e lutas históricas.
Além do impacto educacional, a expectativa é de que a formação contribua para o fortalecimento da produção sustentável e da agroecologia no campo. A diversidade da turma — formada por jovens e adultos com diferentes experiências produtivas — reforça o caráter inclusivo do projeto. Casos como o de trabalhadoras rurais que conciliam atividades como extrativismo, apicultura e agricultura familiar com a vida acadêmica ilustram o alcance social da iniciativa, que passa a ser vista como uma oportunidade concreta de transformação para comunidades rurais da região.





