Uma cobra sucuri voltou a chamar atenção dos moradores de Augustinópolis, no Bico do Papagaio, nesta quarta-feira, 22. A ocorrência, atendida por uma equipe de bombeiros civis, reacende um debate que vai além do susto pontual: a crescente aparição de animais silvestres em áreas urbanas do município tem se tornado rotina preocupante. De acordo com o bombeiro civil Francisco Nunes, em entrevista ao jornal Folha do Bico, apenas neste ano já foram capturadas mais de dez cobras em residências da cidade — além de diversos jacarés registrados nas mesmas circunstâncias. O animal capturado nesta quarta foi solto em seu habitat natural após a ocorrência.
A sucuri é a maior cobra das Américas e uma das maiores do mundo, podendo ultrapassar seis metros de comprimento e pesar mais de 70 quilos. Apesar da aparência imponente e do temor que provoca, ela não é venenosa — sua estratégia de caça é a constrição, envolvendo a presa até a asfixia. O animal é semiaquático, habita margens de rios, lagos e áreas alagadas, e costuma se aproximar de zonas urbanas em busca de alimento, como roedores e aves domésticas, especialmente quando seu habitat natural é fragmentado pelo avanço das cidades. No Bico do Papagaio, região cortada por cursos d’água e com vegetação nativa ainda presente nas franjas urbanas, esse tipo de encontro tende a se repetir enquanto o ordenamento ambiental não acompanhar o crescimento das cidades.
A presença simultânea de sucuris e jacarés em ambientes residenciais indica desequilíbrio na fronteira entre o espaço urbano e os ecossistemas naturais da região. Especialistas em fauna silvestre alertam que o desmatamento de matas ciliares, o assoreamento de igarapés e a ocupação irregular de áreas de preservação permanente são fatores que empurram esses animais para dentro das cidades. Ou seja, a sucuri no quintal não é apenas um evento isolado — é um sintoma ambiental que merece atenção das autoridades municipais e estaduais responsáveis pelo planejamento urbano e pela gestão ambiental.
Diante desse cenário, a orientação é clara: nunca tente capturar ou agredir o animal por conta própria. A sucuri, quando se sente ameaçada, pode reagir com mordidas — que, embora não sejam venenosas, causam ferimentos sérios devido ao tamanho e à força da mandíbula. O procedimento correto é manter distância segura, isolar a área para evitar que crianças e animais domésticos se aproximem, e acionar imediatamente profissionais qualificados. Jamais tente empurrar, prender ou matar o animal: além de ser crime ambiental previsto na Lei nº 9.605/98 — com pena de detenção de seis meses a um ano —, a tentativa de contenção sem equipamento adequado coloca vidas em risco.
Alguns cuidados preventivos também ajudam a reduzir a chance de encontros indesejados. Manter quintais limpos e sem acúmulo de entulho, vedar frestas em muros e fundações, evitar o acúmulo de água parada próximo às residências e não deixar alimentos expostos que atraiam roedores — principal presa da sucuri — são medidas simples e eficazes. Moradores que vivem próximo a rios, lagos ou áreas de mata devem redobrar a atenção, especialmente nos períodos de cheia, quando a movimentação de animais silvestres em direção a terrenos mais altos e secos tende a aumentar significativamente.
A recorrência de ocorrências como essa em Augustinópolis reforça a necessidade de um protocolo municipal permanente de convivência com a fauna silvestre — com campanhas de educação ambiental nas escolas, canais de acionamento rápido para a população e monitoramento das áreas de risco. A natureza do Bico do Papagaio é um patrimônio, não uma ameaça. Saber conviver com ela, com informação e respeito, é o caminho para que tanto os moradores quanto os animais possam ocupar seus espaços com segurança.





