O prefeito de Axixá, no Bico do Papagaio, Dr Auri (PSD), decidiu anular integralmente o processo que previa a contratação de um show milionário da dupla Bruno e Marrone, marcado para março de 2026 e que colocou o município no centro do debate de um tema sensível para municípios de pequeno porte: prioridades de gasto público e limites da razoabilidade em eventos de grande custo.
O cancelamento ocorreu após apontamentos do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins, que identificou falhas técnicas e irregularidades no procedimento de inexigibilidade de licitação. Diante da avaliação do órgão de controle, a administração municipal optou por encerrar o processo, reconhecendo riscos jurídicos e determinando o arquivamento completo da contratação. Oficialmente, a medida busca preservar a legalidade e evitar futuros questionamentos.
Mas o episódio vai além da formalidade administrativa. O valor estimado de R$ 1,1 milhão para um único show artístico levanta dúvidas legítimas quando confrontado com a realidade financeira de um município pequeno e pobre. Em um cenário em que cidades do mesmo porte enfrentam desafios recorrentes em saúde básica, infraestrutura urbana e manutenção de serviços essenciais, a pergunta que ecoa entre moradores e observadores é inevitável: o investimento era proporcional à capacidade orçamentária e às necessidades locais?
O prefeito da cidade, Dr Auri costuma argumentar que grandes eventos aquecem a economia, movimentam o comércio e fortalecem o turismo regional. No entanto, especialistas em gestão pública alertam que esses efeitos, quando existem, são pontuais e difíceis de mensurar, sobretudo em localidades com baixa capacidade de absorção econômica. Sem estudos técnicos robustos que comprovem retorno social e financeiro, o gasto elevado tende a ser visto mais como aposta política do que como política pública estruturada.
A anulação do processo, portanto, pode ser lida sob dois prismas. De um lado, como um gesto de correção institucional diante das exigências do controle externo. De outro, como um sinal de que o debate sobre responsabilidade fiscal, planejamento e prioridades ainda precisa amadurecer no âmbito municipal. A repercussão do caso expõe um sentimento coletivo crescente: a população quer transparência, critérios claros e escolhas que dialoguem com a realidade local — especialmente quando cifras milionárias entram em cena.
O episódio deixa um recado direto aos gestores públicos: em tempos de fiscalização rigorosa e cidadãos cada vez mais atentos, decidir como gastar o dinheiro público é também decidir como construir confiança. E, nesse jogo, o custo político de escolhas mal explicadas pode ser tão alto quanto o valor do contrato que nunca saiu do papel.




